Miraidon
Eu estava irritado. Me lancei para dentro do meu escritório e tranquei a porta. Precisava respirar.
O que fazer da vida? O que eu quero para o meu futuro?
É muita pressão! Já não basta estarmos morando juntos? Já foi um passo grande! Vamos um por vez!! Eu nem sei o que vai acontecer daqui uma semana!
Apenas coloquei música para tocar no aleatório e me larguei na cadeira.
Fui me deixando envolver por uma guitarra alegre. Ótimo. Um pouco de alegria. Talvez seja o que eu preciso.
No segundo seguinte, quase caí para trás com a cadeira e tudo.
Um cachorro!
É!
Um cachorro materializou na minha frente!
Não! Não tenho cachorro!
Sim! A porta estava trancada!
Não, mais estranho que um cachorro ter surgido do nada no meu escritório:
Ele está sorrindo!
Estranhamente igual o cachorro que aparece na música O portão. O cachorro que recebeu o dono dele, sorrindo.
Outra mais estranha ainda:
Ele estava falando comigo!
– Muito prazer! Eu sou o Seu Futuro! Pode contar comigo!
Ele abanava o rabo muito alegre. As patas da frente confortavelmente apoiadas na minha mesa. Como se estivesse se apresentando, me olhando nos olhos. Ele continuava sorrindo.
Eu ouvia a voz alegre, quase saltitante dele, mas ele não ficava articulando igual aqueles animais de filme infantil. Mas ele agia de acordo com o que ele estava “falando”. Ou me falando por telepatia, sei lá.
– Agora eu dou a grande abertura disto que se chama Hoje! Sempre esperei por este momento! Agora venho te buscar deste jeito, daquele lugar que você chamava de Amanhã até ontem.
O cachorro olhava para mim, girava em torno de si, tornava a olhar para mim, saltitava e dava uns passinhos na minha direção.
– Vamos seguindo em frente! O lugar onde você está agora... Vamos seguindo em frente. Isso! Esse é o grande centro do futuro!
Ele começou a dar voltas ao meu redor, saltitando, sua cabeça grande inclinava de um lado para o outro, foi aí que finalmente percebi, ele não só estava falando, mas estava cantando! Continuava sorrindo.
– Começo, ei Começo! Vamos enfrentar tudo!
O negócio ficou ainda mais estranho. Ele latiu! E sem parar de cantar! Como ele fazia aquilo? Ele latia como se chamasse alguém. Alguém que eu não estava enxergando. E dava pulinhos de alegria olhando para mim.
– Vamos aprontar coisas sem sentido, vamos voltar a consciência para “nada”.
Ele começou a pular de um jeito estranho, parecia ter quebrado alguma coisa dentro dele. E então rolou no chão e se estendeu com a barriga peluda para cima. A língua para fora, com aquela cara de bobo.
Depois de quatro tempos nessa posição, como se estivesse executando alguma coreografia maluca, ele se levantou rapidamente e pegou, não sei de onde, uma coleira comprida e começou a se aproximar de mim novamente.
Não! Insisto que não tenho cachorro, então, porque raios eu teria uma coleira?
Me afastei um pouco daquele bicho doido. Não tinha como negar que ele era adorável com aquela performance, mas vai saber a real intenção dele, né?
Em reação ao meu recuo, ele se sentou, com a coleira pendurada na boca grande.
– “O que esperar do amanhã?” Não diga algo tão sem esperança assim.
Ele inclinou a cabeça e baixou as orelhas.
– É só esperar de mim tudo o que você imaginar!
Suas orelhas subiram de novo e ele voltou a sorrir e abanar o rabo.
– Você pode ter a forma que quiser!
Ele abriu as patas dianteiras e levantou seu traseiro peludo, o rabo abanando freneticamente. Como se eu estivesse com uma bolinha de tênis na mão, prestes a lançar para ele.
– Você tem que me mudar, por favor! Me faça brilhar, por favor.
Ele pulava com entusiasmo sobre as patas traseiras, as patas dianteiras dançando a frente do focinho. Com o sorrisão na cara grande de cachorro.
– Vamos seguindo em frente, a volta maior ou o atalho...
Ele virou de costas para mim e começou a simular uma caminhada. A coleira arrastando no chão. Ele deu uma olhada de volta para mim.
- Vamos seguindo em frente, não é o mesmo um passo?
Ele continuou sua encenação de cachorro passeando e virou de novo para mim, com a cabeça torta, quase me olhando de cabeça para baixo. Aquele sorriso se alargando de ponta-cabeça.
Não resisti mais. Agarrei a ponta da coleira e me preparei para… sei lá, satisfazer aquela criatura adoravelmente maluca.
– Começo, ei Começo! O futuro que se chama “hoje”.
Agora comigo do outro lado da coleira, o bicho voltou a latir para alguma coisa que parecia estar por aí. E saltitava me arrastando atrás dele.
Nós dois continuamos nesse ritual, andando e saltitando (é, eu entrei na dança, ninguém estava olhando mesmo!) ao redor da minha escrivaninha e ele continuava latindo e cantando simultaneamente, ainda com muita energia.
– Vamos juntar nossas mãos com força, vai tudo se sair bem!
E deu uma última olhada cheia de brilho minha direção.
As batidas fortes na porta me fizeram cair para trás, ainda sentado na cadeira. Levantei lutando para sair dos braços, do encosto e das rodinhas da cadeira e fui tropeçando, sei lá em quê para abrir a porta para minha mulher.
– O que você vai querer comer? - aquela voz doce daquela minha parceira vinha um pouco tímida da fresta que consegui abrir. – Você está bem?
– Estou ótimo!
Minha resposta não deve tê-la convencido direito, ela passou a procurar por alguma pista do que poderia ter acontecido naqueles 5 minutos. Seus olhos pararam na minha mão direita.
– O que é isso?
A coleira? Não podia ser!
Eu também tive que baixar meus olhos para conferir.
Eu não tinha uma corda de passeio de cachorro. Ufa!
Mas eu tinha um bolo grosso de papéis de tudo que é tipo. De caderno, de sulfite, amassados, envelhecidos. Demorei um pouco para reconhecer, mas aquele era o esboço de um livro. Do meu livro. Uma aventura emocionante que ninguém no mundo conhecia.
Que, certo dia, eu também decidi não conhecer melhor. Havia decidido trancar aquele mundo enorme que eu criei no fundo da gaveta.
– O começo! - foi o que consegui responder.
No meio do rosto confuso da minha mulher, surgiu um sorriso inseguro.
Percebi que eu também comecei a sorrir. A visão de tantas possibilidades ainda pela frente me encheu de alegria. Precisava me mexer!
– Onde você vai?
– Procurar aquele doido!
– Que doido?
– Do Meu Futuro!
– Ahan… – ela sorria erguendo as sobrancelhas e olhando para alguma coisa do lado dela. Talvez o cachorro doido dela também estivesse lá. – mas antes, vamos almoçar!
– Claro! - Respondi com um sorriso bobo, que me lembrava muito o sorriso daquele bicho divertido que veio bater um papo leve comigo.
O Meu Futuro.
* * *
Esta historinha foi inspirada na letra de uma música japonesa chamada “Miraidon”. Da banda Kariyushi 58.
Kariyushi 58 é uma banda formada por quatro rapazes de Okinawa, formada em 2005.
O que me chamou a atenção é a voz alta do vocalista (alta no sentido de contrário
de grave). O que dá a essa música da qual estou falando, a Miraidon, um ar leve e alegre.
A letra (em romaji) você encontra, entre outros sites, aqui:
A seguir, você confere a letra de Miraidon traduzida livremente por mim.
Miraidon - Kariyushi 58
Muito prazer, eu sou seu futuro, conto com você, conte comigo.
Agora eu dou a grande abertura disto que se chama “hoje”
Sempre esperei por este momento, agora venho te buscar deste jeito
Daquele lugar que você chamava de “amanhã” até ontem.
Vamos seguindo em frente, o lugar onde você está agora
Vamos seguindo em frente. Isso! Esse é o grande centro do futuro!
“Começo”, ei “começo”! Vamos enfrentar tudo!
Vamos aprontar coisas sem sentido, vamos voltar a consciência para “nada”
“O que esperar do amanhã?” Não diga algo tão sem esperança assim
É só esperar de mim tudo o que você imaginar
Você pode ter a forma que quiser
Você tem que me mudar, por favor! Me faça brilhar, por favor
Vamos seguindo em frente, a volta maior ou o atalho
Vamos seguindo em frente, não é o mesmo 1 passo?
“Começo”, ei “começo”! O futuro que se chama “hoje”
Vamos juntar nossas mãos com força, vai tudo sair bem
“Começo”, ei “começo”! Vamos enfrentar tudo!
Vamos aprontar coisas sem sentido, vamos voltar a consciência para “nada”
“Começo”, ei “começo”! Vamos enfrentar tudo!
Vamos aprontar coisas sem sentido, vamos voltar a consciência para “nada”
“Começo”, ei “começo”! O futuro que se chama “hoje”
Vamos juntar nossas mãos com força, vai tudo sair bem
Muito obrigada por ler até aqui!
Infelizmente, não encontrei a música disponível no youtube. Mas se achar, por favor comente aqui.
Um bom Futuro para todos nós! Ele pode ser adorável! Ele pode ser muito louco!
É você quem manda!
É você quem manda!
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